A Primeira Liga é uma liga, e no Legends XI joga-se como tal: vinte equipas, trinta e oito jornadas, todos contra todos, em casa e fora. Não há final que salve uma época nem sorteio que perdoe um mês mau — campeão é quem somar mais pontos ao fim de nove meses. Vai de 1934-35, a primeira edição disputada em forma de campeonato, até hoje, e de cada uma dessas épocas o jogo guarda os três primeiros classificados. A escolha do ano zero não é inocente, e convém dizê-lo: entre 1921 e 1938 existiu o Campeonato de Portugal, que era uma taça a eliminar, e há quem some esses troféus aos de liga. Aqui não se somam. O Campeonato de Portugal era outra prova, com outro formato, e o Legends XI já tem a Taça de Portugal como competição própria. A liga começou em 1934-35 e é de 1934-35 que se conta. O que salta à vista de quem percorre estas noventa e tal épocas é como o futebol mudou de aritmética. Nos anos trinta e quarenta marcavam-se quase cinco golos por jogo; nos anos sessenta três; desde os anos oitenta pouco mais de dois e meio. Um avançado de 1946 e um de 2020 não jogaram o mesmo desporto, e comparar os números deles em bruto é comparar mal. Foi por isso que, para decidir quem é o maior desta prova, os golos de cada um foram medidos contra o que se marcava à volta dele — e não contra uma tabela única que favorece sempre quem jogou mais cedo. Três clubes fizeram esta história, e fizeram-na por turnos. O Sporting dos anos quarenta, o dos Cinco Violinos, teve a linha avançada mais produtiva que o campeonato alguma vez viu — e, ainda assim, ganhou metade dos campeonatos da década, porque marcava muito e sofria também. O Benfica dos anos sessenta foi o contrário: ganhou onze dos quinze campeonatos de uma década e meia, e em 1972-73 acabou o campeonato invicto — vinte e oito vitórias e dois empates em trinta jogos, dezoito pontos à frente do segundo numa altura em que uma vitória valia dois. É a equipa mais dominante que esta prova conheceu. O FC Porto veio depois, a partir do final dos anos setenta, e trouxe a defesa: houve duas épocas em que sofreu nove golos em trinta jogos — e ficou em segundo lugar nas duas, que é das coisas mais cruéis que este campeonato já fez a alguém. O pantheon que se segue tenta descrever isso, e não premiar um clube. São cinco cartas do Benfica, quatro do FC Porto e três do Sporting, em doze épocas diferentes — e em três lugares a escolha foi contra o nome mais famoso, porque os números disseram outra coisa. Está tudo explicado carta a carta.
O melhor de sempre da prova
Fernando Peyroteo — Sporting CP 1946-47
Trezentos e trinta e dois golos em cento e noventa e sete jogos: é o melhor marcador de sempre desta competição, e fê-lo a um golo e sete décimas por jogo — um ritmo de que nenhum avançado com mais de cem golos na prova alguma vez se aproximou. A carta é de 1946-47, a época dos quarenta e três golos em dezanove jogos, com o Sporting campeão.
Esta carta foi do Eusébio até Setembro de 2026, e vale a pena contar porque é que mudou. A decisão anterior fechava com uma frase: o que separava os dois eram as sete Bolas de Prata do Eusébio, que se ganham sozinho e que a equipa não empresta a ninguém. Só que a Bola de Prata foi criada em 1951-52, e o Peyroteo retirou-se em 1948-49. Não é que ele tenha ganho menos — é que não as podia ter ganho. O que ele tem são seis títulos de melhor marcador do campeonato, contra sete do Eusébio, e um de cada lado foi partilhado.
Refeita a conta, fica isto. Em golos, é o Peyroteo, com cento e dezasseis jogos a menos. Na quota da própria equipa, é o Peyroteo outra vez: trinta e seis por cento de tudo o que o Sporting marcou, contra vinte e oito do Eusébio no Benfica — e num ataque mais fraco, porque o Sporting dele marcava uma vez e meia a média da prova e o Benfica do Eusébio quase o dobro. A régua desta casa manda descontar a força da equipa, e desta vez o desconto caiu do outro lado.
O que continua a jogar a favor do Eusébio, e não se esconde: onze campeonatos contra cinco, mais três épocas de carreira na prova, e a melhor época isolada que os dois tiveram. Mas a carta de cem não é a melhor época — é quem domina a história da prova. E essa, em golos, continua a ser deste homem, oitenta anos depois.
GK
Vítor Baía — FC Porto 1994-95
Quatrocentos e seis jogos e dez campeonatos: nenhum outro guarda-redes desta prova junta as duas coisas. Para o segundo, o Manuel Bento, a distância é de setenta e oito jogos — mas de um só campeonato, e isso diz-se. Esteve no FC Porto ao longo de dezassete épocas, e a carta é de 1994-95, em que jogou trinta e três dos trinta e quatro jogos de um campeonato ganho. O nome que este lugar deixa de fora diz mais sobre a régua desta casa do que o nome que fica: o Rui Patrício foi três vezes eleito o melhor guarda-redes da liga e não ganhou um único campeonato em doze épocas no Sporting. A nota aqui é da prova, e na prova ele não levantou nada.
RB
João Pinto — FC Porto 1991-92
Quatrocentos e oito jogos pelo FC Porto e nove campeonatos, ao longo de dezasseis épocas — é o lateral mais utilizado da história desta competição, e foi titular em sete dos nove títulos que ganhou. A carta é de 1991-92, em que fez trinta e três jogos e marcou oito golos de lateral, um número que nem os extremos de muitas equipas atingiram nessa época. Atrás dele fica o António Veloso, com trezentos e setenta e oito jogos e sete títulos pelo Benfica: menos trinta jogos e menos dois campeonatos, e a diferença não é suficiente para trocar, mas é pequena o bastante para se dizer.
CB
Humberto Coelho — SL Benfica 1974-75
Cinquenta e seis golos, que é uma coisa que nenhum outro central desta prova fez, em trezentos e cinquenta e cinco jogos e oito campeonatos. Jogava a defender e aparecia a marcar, e fê-lo durante catorze épocas de pódio. A carta é de 1974-75, campeonato ganho em que fez trinta jogos — a época inteira — e marcou oito golos.
CB
Aloísio — FC Porto 1998-99
Sete campeonatos e titular nos sete, em trezentos e trinta e dois jogos de central pelo FC Porto. Se o Humberto Coelho é o central que marcava, este é o que estava sempre lá: a carta é de 1998-99, em que fez trinta e três dos trinta e quatro jogos do campeonato ganho, e marcou quatro golos. Este lugar foi do Jorge Costa até Setembro de 2026, e vale a pena contar porque é que mudou. Em títulos em bruto o outro está à frente, oito contra sete, e era esse o número que estava escrito aqui. O que mudou foi a régua: um título passou a contar como titular, e titular passou a ser ter jogado pelo menos metade dos jogos que o clube fez nessa época. Refeita a conta, é sete contra cinco — três dos oito campeonatos do Jorge Costa vieram com oito, treze e treze jogos, e o Aloísio não tem um único título em que tenha jogado menos de quatro quintos da época. O que continua a jogar para o outro lado, e não se esconde: um título a mais e duas épocas a mais de camisola vestida. E a força da equipa não separa nenhum dos dois, porque é a mesma equipa e quase a mesma década — o que os separa é quem estava em campo quando os campeonatos se ganharam.
LB
Fernando Cruz — SL Benfica 1962-63
Oito campeonatos em onze épocas, e titular nos oito — não há outro lateral desta prova com uma proporção assim. Duzentos e vinte e sete jogos pelo Benfica, todos na esquerda, na década em que o clube ganhou quase tudo o que havia para ganhar. A carta é de 1962-63. Há um pormenor que vale a pena registar, porque explica porque é que este nome não aparece nas listas habituais: a fonte de onde saem estes dados classifica-o como médio, e está errada. Tanto o registo do clube como as fichas biográficas lhe chamam lateral-esquerdo.
CDM
António André — FC Porto 1986-87
Duzentos e setenta e seis jogos e sete campeonatos pelo FC Porto, a fazer o trabalho que não aparece em estatística nenhuma — e ainda assim vinte e três golos a partir de trás. A carta é de 1986-87. É honesto dizer que este é o lugar mais fraco deste pantheon, e a razão não é dele: o médio defensivo, como posição catalogada, é recente. O futebol português da primeira metade do século jogava com um médio-centro que fazia este trabalho e que ninguém classificou assim. Se esses contassem, o Toni e o Jaime Graça disputavam este lugar — e é uma decisão de arrumação, não de mérito.
CM
Mário Coluna — SL Benfica 1954-55
Dez campeonatos ganhos como titular, o que — a par do António Simões — é o máximo de qualquer jogador de campo desta prova, incluindo o Eusébio, que tem onze títulos mas nove como titular. Trezentos e sessenta e três jogos e oitenta e nove golos a partir do meio-campo, em dezasseis épocas de pódio. A carta é de 1954-55, a primeira dele. Foi o homem que segurou o meio-campo do Benfica durante toda a década em que o clube foi a melhor equipa que este campeonato viu, e fê-lo do primeiro ao último ano.
CAM
Manuel Vasques — Sporting CP 1950-51
Cento e cinquenta e sete golos a partir do meio-campo ofensivo, oito campeonatos, e titular nos oito. É um nome que quase ninguém diria, e os números não deixam grande margem: marcou quase um em cada cinco golos do Sporting ao longo de dez épocas de pódio. A carta é de 1950-51, a época em que foi o melhor marcador do campeonato com vinte e nove golos. Vale a pena o contraste com quem ficou de fora: o Bruno Fernandes tem dois prémios de melhor jogador da liga e nenhum campeonato, em duas épocas de pódio. Aqui, isso não chega.
RW
José Augusto — SL Benfica 1960-61
Cento e catorze golos de extremo, oito campeonatos e titular nos oito, em duzentos e quarenta e cinco jogos. A carta é de 1960-61, em que marcou vinte e quatro golos em vinte e cinco jogos — um registo de avançado, feito da direita. A disputa por este lugar foi decidida pela longevidade, e não pelos golos: o Jesus Correia, do Sporting dos anos quarenta, marcou mais golos do que ele — cento e vinte e oito — em menos oitenta e oito jogos. É um rácio melhor, e reconhece-se. O que o José Augusto tem é mais um campeonato e quase cem jogos a mais ao mesmo nível, e é isso que decide um lugar destes.
LW
Albano — Sporting CP 1952-53
Cento e quinze golos pela esquerda e oito campeonatos, em doze épocas no Sporting. Marcou mais de um em cada dez golos da equipa dele ao longo de toda a carreira, o que para um extremo é muito. A carta é de 1952-53. Esta é a escolha mais discutível deste pantheon, e não se esconde. O lugar era do António Simões, que tem dez campeonatos contra oito e mais setenta jogos. O que fez a balança virar foi a produção: o Albano marcou cento e quinze golos onde o Simões marcou quarenta e cinco, e carregou duas vezes e meia mais do ataque da equipa. E os títulos do Simões vêm do Benfica que ganhou quase todos os campeonatos da década — que é exactamente o palmarés que a régua desta casa manda descontar. Fica dito o que esta escolha tem de frágil: esta prova não tem registo de assistências, e julgar um extremo que servia os outros apenas pelos golos que marcou é medi-lo com a régua errada. Se esses números aparecerem um dia, este é o primeiro lugar a reabrir.
ST
Eusébio — SL Benfica 1967-68
Quarenta e dois golos em 1967-68 — mais de metade de tudo o que o Benfica marcou nesse campeonato — e a Bota de Ouro europeia no fim. Medida contra o que se marcava à volta dele nesse ano, é a melhor época isolada das duas carreiras que decidiram a carta de cem desta prova: fica acima da melhor do Peyroteo, que é a de 1937-38.
Ao todo são trezentos e dezasseis golos em trezentos e um jogos pelo Benfica, sete títulos de melhor marcador do campeonato e onze campeonatos ganhos.
Esta foi a carta de cem desta competição até Setembro de 2026. Perdeu-a porque o argumento que a segurava comparava os dois homens por um prémio que não existia no tempo do Peyroteo. O que fica é a distinção que o pantheon faz: o Eusébio tem o pico desta prova, e o Peyroteo tem a história dela.