Como as notas são feitas

A régua com que cada carta do Legends XI é medida — e porque é que ela mede uma competição de cada vez.

Última actualização · 25 de Agosto de 2026

1. A regra que rege tudo

Há uma frase que explica todas as cartas deste site: a nota é da prova, não da carreira.

A nota de um jogador numa competição mede o que ele fez naquela competição. Não é o valor dele no futebol em geral, não é a média da carreira, e não é a fama.

Se um jogador foi banal durante toda a carreira mas foi o melhor de sempre de uma prova — marcou mais golos, fez mais diferença —, então a nota dele naquela prova tem de ser única. É esse o princípio, e tudo o resto sai daqui.

Isto só é possível porque cada competição tem o seu espaço próprio. O mesmo ser humano pode ser uma carta de 87 numa prova e uma carta de 80 noutra sem que haja conflito nenhum: são registos distintos, com histórias distintas.

O caso que obrigou a escrever a regra em letra grande foi a Taça da Liga, onde a carta mais alta da prova era um jogador com uma só presença na competição. Estava alto porque era famoso, e não porque tivesse feito ali alguma coisa. A prova foi recalibrada.

2. O que a regra proíbe

Uma regra só serve para alguma coisa se disser também o que não se faz. Esta diz quatro:

  • Copiar a nota de uma prova para outra «porque é o mesmo jogador».
  • Dar nota alta a um craque que passou uma vez pela prova e não fez nada.
  • Dar nota baixa a quem ganhou a prova cinco vezes só porque não era famoso.
  • Inventar desempenho. Se a fonte não confirma, não entra.

3. De onde vêm os dados, e o que as notas são

São duas coisas diferentes e vale a pena separá-las com clareza.

Os planteis e as formações foram compilados à mão, a partir de fontes públicas — a Wikipédia, o zerozero e outras. Quem jogou por quem, em que época, em que posição, e o que aconteceu naquela campanha.

As notas não são estatística oficial e não foram importadas de lado nenhum. São um juízo editorial, atribuído segundo os critérios que estão nesta página. São uma opinião fundamentada, e é por isso que os critérios estão escritos: para que a discordância seja possível e precisa.

E há uma disciplina que anda com isto: quando uma prova não atribui um prémio, não se inventa um substituto. A Taça da Liga, por exemplo, não tem melhor jogador da final nem do torneio — logo esse critério simplesmente não conta lá.

4. Como se mede o desempenho, por ordem de força

Os cinco critérios estão por ordem, e a ordem é o que interessa: o de cima ganha ao de baixo sempre que discordarem.

  • Recordes oficiais da competição. Mais títulos, mais jogos, mais golos, melhor marcador de uma edição. São factos publicados e não se discutem.
  • Palmarés dentro da prova. Títulos, finais disputadas, presenças na fase final.
  • Produção. Golos e assistências na prova — e os golos em finais valem mais.
  • Protagonismo. Jogos disputados, titularidade, finais decididas.
  • Qualidade real do jogador. Só como desempate, dentro da mesma faixa.

Repara em qual é o quinto. A qualidade geral do jogador é o último critério e não o primeiro — é essa inversão que separa medir uma competição de repetir o que toda a gente já acha.

5. A escada das notas

Os números querem dizer o mesmo em todas as provas, mas medem sempre dentro da própria prova.

Nota Quem é, dentro daquela prova
100 O jogador mais decisivo da história da competição. Uma carta, e uma só.
99 O melhor de sempre da prova em cada posição — os ícones.
96–98 O pico irrepetível de alguém que, ainda assim, não é o melhor de sempre no lugar.
92–95 Recordistas e protagonistas de várias conquistas.
87–91 Multi-campeões titulares, e quem decidiu finais.
82–86 Titulares de equipas campeãs ou finalistas, e melhores marcadores de uma edição.
76–81 Presenças regulares na fase final.
70–75 Uma ou duas presenças, com papel discreto.

A faixa dos 96 aos 98 é para usar com pinça. Serve para uma época que não cabe nos 95 e não pode ter o 99 porque o lugar já está ocupado por outro. O primeiro caso foi o Cristiano Ronaldo de 2007-08 na Premier League — 31 golos a jogar pela direita, o título, o prémio de Jogador do Ano da prova e a Bola de Ouro — que estava a 94, abaixo de quatro épocas normais do Salah. O 99 de extremo-direito é do Salah, e a conta manda que seja (4 Botas de Ouro contra 1, 193 golos contra 103). O 98 diz o que tem a dizer: nível de ícone, com o lugar tomado.

O que a faixa não é: um degrau para subir os craques famosos. Um 96 justifica-se com a mesma evidência de um 99; a única diferença é que alguém melhor ocupa o lugar.

6. O 100 — um por competição

Cada prova tem uma carta de 100, e só uma. O critério é o mais fácil de ler ao contrário, por isso vale a pena dizê-lo pela negativa: não é quem fez a melhor campanha isolada. É quem domina a história da prova — golos, assistências, livres, finais e meias-finais decididas, títulos.

A época da carta é apenas a que melhor materializa isso, tipicamente aquela em que bateu um recorde. Tirando esse ano, continuaria a ser ele.

  • Champions League — Cristiano Ronaldo, Real Madrid 2013-14. Melhor marcador de sempre da prova, melhor assistente, o que mais livres marcou, e o que mais marcou em finais e em meias-finais. O ano escolhido é o dos 17 golos, recorde de uma edição — mas o título de melhor de sempre não vem daí.
  • Mundial — Pelé, Brasil 1970. O único tricampeão do mundo.
  • Taça da Liga — Paulinho, Sporting 2022-23. Melhor marcador de sempre da prova, com 21 golos quando o segundo tem 12; 8 numa só edição, que é o recorde; e três vezes melhor marcador da competição. Fama modesta no futebol europeu, rei absoluto desta taça — é o critério a funcionar.
  • Euro — Cristiano Ronaldo, Portugal 2016. Recordista da prova em golos (14), em jogos (30) e em edições com golo marcado (5, quando mais ninguém passa de 3), e campeão. O ano é o do título de Portugal.

O 100 não é cor. A carta recebe 100 de remate e 100 de passe, e o jogo recusa-se a semear duas cartas de 100 na mesma competição. Quem leva o 100 numa prova é mesmo o melhor jogador dessa prova.

O mesmo jogador pode ser o 100 de duas provas diferentes — o Cristiano Ronaldo é o da Champions e o do Euro. São duas histórias e duas cartas independentes.

7. Os onze ícones de 99

Abaixo do 100 vêm os ícones, com nota 99: o melhor de sempre da prova em cada posição. É o mesmo critério do 100, aplicado posição a posição — palmarés e impacto na competição, não a fama geral.

O jogo tem dez códigos de posição, o que daria dez ícones. São onze, e a razão é aritmética: nenhuma formação alinha com um jogador por posição. Todas pedem pelo menos dois centrais, e três delas pedem três. Com um só central de 99, um onze inteiramente azul era impossível.

  • A dupla de centrais é uma unidade real do futebol, não uma invenção do jogo. Baresi e Maldini. Thiago Silva e Lúcio. Nomear os dois descreve a prova com mais fidelidade, não com menos.
  • Não abre precedente. Não vai haver «o 2.º melhor médio ofensivo»: o critério é a posição que todas as formações do jogo repetem.
  • Um jogador pode ser ícone numa prova e o 100 noutra, ou as duas coisas em épocas diferentes da mesma prova.

O que fica de fora, e de propósito: as formações com três centrais continuam a não alinhar um onze todo azul. Cobri-las exigia um terceiro central e um segundo avançado — e aí a carta azul deixava de querer dizer «o melhor de sempre».

8. No máximo três versões de cada jogador

Um jogador tem, no máximo, três notas distintas por competição. Não é um limite estético: é o que impede a mesma pessoa de encher um sorteio com seis versões quase iguais umas às outras.

Como a nota já reflete a carreira do jogador dentro da prova, o normal é ele ter uma nota só em todas as épocas. A segunda versão costuma ser a carta de ícone, na época concreta em que foi mais decisivo. Campanhas de anos vizinhos reutilizam a versão que bater certo com a realidade.

E conta-se por prova, não por jogador. O Zidane da Champions e o Zidane do Mundial são registos distintos, com histórias próprias — e por isso cada um tem o seu limite de três.

9. A escala tem de fechar no topo

Uma competição pode ter as notas todas na ordem certa e continuar mal calibrada. Aconteceu em várias provas deste site: entre o melhor jogador sem raridade e os ícones de 99 chegou a haver onze pontos de vazio, com a faixa das lendas às moscas e 97% das cartas abaixo de 80.

Isso estraga duas coisas ao mesmo tempo. Estraga a leitura — as cores deixam de significar seja o que for quando é tudo cinzento e depois há onze deuses. E estraga o draft — com quase todas as cartas na mesma faixa de dez pontos, as escolhas são equivalentes e ganha quem calhar com um ícone.

A correção não podia ser recalcular quem está acima de quem, porque a ordenação não estava errada: era a régua que estava esmagada. Estica-se a régua mantendo a ordem exactamente igual, por remapeamento de percentil, com três garantias:

  • A ordem não muda. O mapa é por valor e não por lugar: empates continuam empates, e ninguém troca de posição com ninguém.
  • O chão não sobe. Quem era figurante continua a ser figurante.
  • A régua constrói-se sobre a população comum. As cartas de quem já tem raridade estão no topo por construção; se entrassem na conta, comiam os percentis de cima.

O alvo é simples de verificar: entre o melhor jogador sem raridade e os 99 não devem ficar mais do que uns cinco pontos.

E isto não é inflação, pela razão que abre esta página: as notas só são comparáveis dentro da mesma prova. Um 85 na Taça da Liga não vale um 85 na Champions, e nunca valeu. Esticar a escala é escolher a régua com que se mede aquela competição — não afirmar que os jogadores dela ficaram melhores.

10. A campanha perfeita

Ganhar todos os jogos de uma prova, do primeiro à final, é a campanha perfeita — a proeza mais rara do jogo. O número muda com a competição, porque o caminho até ao título muda: 13-0 na Champions, 8-0 num Mundial.

E só existe em provas com fase de grupos. Uma taça ganha em três jogos é um título, não uma proeza: se contasse, três jogos valiam o mesmo que treze.

11. Discordar disto

Estes critérios estão escritos para que se possa discordar deles com precisão. Se achas que uma nota não se sustenta, diz o que o jogador fez naquela competição e porque é que isso não cabe no número que ele tem. Um argumento desses vale mais do que cem opiniões, e é o correio mais útil que este site recebe.

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