A La Liga é uma liga, e isso muda tudo. No Legends XI ela joga-se a vinte equipas e trinta e oito jornadas, todos contra todos, em casa e fora — o formato de hoje, que a prova a sério só fixou nos anos 90. Não há final que salve uma época nem sorteio que perdoe um mês mau: campeão é quem somar mais pontos ao fim de nove meses. É a prova mais longa do jogo, e uma das duas em que o título se ganha pela regularidade e não por uma noite. Vai de 1928-29 a 2025-26 — noventa e cinco épocas, do ano em que a competição nasceu até hoje, com o campeão, o vice e o terceiro classificado de cada uma. Faltam três da conta: 1936-37, 1937-38 e 1938-39 não se jogaram, por causa da Guerra Civil de Espanha.
Cada prova do jogo tem uma carta de 100, e ela não é do melhor jogador que por aqui passou: é de quem domina a história da competição. Não se conta a melhor época isolada — contam-se os golos, os títulos e os recordes acumulados ao longo de anos. A época escolhida para a carta é apenas a que melhor materializa esse domínio, e a régua é simples: tirando esse ano, continuaria a ser ele. Em La Liga não há discussão possível, e o nome é o Lionel Messi.
O melhor de sempre da prova
Lionel Messi — FC Barcelona 2011-12
Quatrocentos e setenta e quatro golos em La Liga, melhor marcador de sempre da prova — e a distância para o segundo não se mede em golos, mede-se em centenas. Oito vezes Pichichi, também recorde. A carta é da época 2011-12, aquela em que marcou 50 golos num só campeonato: é o recorde absoluto da competição e ninguém chegou perto desde então. O Barcelona ficou em segundo lugar nesse ano, e a carta é dessa época na mesma, porque o que ela marca é o recorde e não o título. O rival mais sério continua a ser o Cristiano Ronaldo, que teve nove épocas de um ritmo comparável — mas 474 golos contra 311, e oito Pichichis contra três, é uma diferença que o tempo já fechou. E mesmo assim há três recordes desta prova que nem o Messi tem: os 622 jogos, partilhados por Andoni Zubizarreta e Joaquín; os sete golos num só jogo, do Bata e do Kubala; e os doze títulos do Francisco Gento — o resto deste pantheão que se mede a seguir.
GK
Jan Oblak — Atlético de Madrid 2020-21
Seis Troféus Zamora — o recorde absoluto da prova, e o Zamora é o troféu dos guarda-redes, o equivalente ao Pichichi. Ganhou-os num Atlético que quase nunca partiu como favorito, e sofreu 0,76 golos por jogo quando o Andoni Zubizarreta, que tem seis títulos e 622 jogos, sofreu 1,005. A carta é de 2020-21, o ano em que o Atlético quebrou o duopólio e ele levou mais um Zamora.
RB
Dani Alves — FC Barcelona 2008-09
Quatrocentos e trinta e seis jogos, vinte e seis golos e cento e treze assistências — números de quem constrói o jogo da equipa, e não de quem apenas a defende. A época é a de 2008-09, a única em que a própria Liga o nomeou melhor defesa. O Chendo, que ocupava este lugar, tem um título a mais: sete contra seis. Um título de diferença não chega para decidir um lugar destes, e em tudo o resto a distância é grande.
CB
Sergio Ramos — Real Madrid 2019-20
Tem cinco títulos, menos do que o Manuel Sanchís e do que o Piqué, que têm oito cada, e entra à frente dos dois. É o único central da história da prova com um recorde dela: nenhum defesa marcou mais golos em La Liga. Jogou 536 jogos, mais do que qualquer outro central, e esteve no pódio em dezasseis épocas. E os cinco títulos dele foram ganhos a correr atrás do Barcelona do Messi — ganhar oito dentro dessa equipa não custou o mesmo que ganhar cinco contra ela.
CB
Gerard Piqué — FC Barcelona 2012-13
Oito títulos — empatado com o Manuel Sanchís, o central que ocupava este lugar —, e catorze épocas de pódio contra as doze dele. É o segundo dos dois centrais deste onze, ao lado do Sergio Ramos, porque nenhuma formação do jogo alinha com um central só.
LB
José Antonio Camacho — Real Madrid 1979-80
Nove títulos — mais do que qualquer outro lateral da história desta prova, incluindo os dois que ficam de fora deste onze: o Roberto Carlos e o Marcelo, cada um com quatro. Fê-lo em 414 jogos pelo Real Madrid, com uma única expulsão em toda a carreira. A carta é de 1979-80, ano de título em que jogou 33 dos 34 jogos da equipa.
CDM
Sergio Busquets — FC Barcelona 2015-16
Nove títulos em quinze épocas de pódio — o mesmo total do Camacho e do Amancio neste pantheão, e atrás apenas do Pirri (dez) e do Gento (doze). Quinze anos a fazer o trabalho que não aparece nas estatísticas, e ainda assim mais títulos do que quase toda a gente que jogou à frente dele. A época é a de 2015-16, o campeonato ganho por um ponto e o único ano em que a Liga o pôs na equipa da época.
CM
Andrés Iniesta — FC Barcelona 2010-11
Cinco vezes Melhor Médio-Ofensivo de La Liga, em quatrocentos e quarenta e dois jogos e nove campeonatos. Este lugar era do Pirri, que tem dez títulos e marcou 123 golos a partir do meio-campo — e mudou quando se mediu a força das duas equipas sobre a mesma janela: as dezasseis épocas que cada um deles fez nesta prova. O Real Madrid do Pirri ganhou dez desses dezasseis campeonatos, e o Barcelona do Iniesta ganhou nove — e três dos nove por um, dois e três pontos, contra um Real Madrid que fez 96, 92, 92 e 90. Os dez títulos do Pirri foram mais ajudados do que os nove do Iniesta.
CAM
Alfredo Di Stéfano — Real Madrid 1956-57
Oito títulos, cinco vezes Pichichi e 227 golos ao longo da carreira — números que bastariam para o pôr neste onze em qualquer posição do meio-campo. Jogou mais recuado do que um avançado puro, e a literatura espanhola chama-lhe "mediapunta"; uma das fontes vai mais longe e chama-lhe "el ejemplo más clásico" da posição. A carta é de 1956-57, ano de título e do seu melhor Pichichi: 31 golos. Nasceu argentino, e é como tal que os dados o registam.
RW
Amancio Amaro — Real Madrid 1968-69
Nove títulos e dois Pichichis, ambos partilhados — 1968-69 foi as duas coisas ao mesmo tempo — numa carreira inteira do lado direito do ataque do Real Madrid: a literatura chama-lhe, à letra, "outside right". Este lugar seria uma disputa mais renhida se o Messi, que também jogou por ali, não estivesse já ocupado com a carta de 100.
LW
Cristiano Ronaldo — Real Madrid 2011-12
Trezentos e onze golos em duzentos e noventa e dois jogos — mais de um por jogo, e é o único jogador desta prova que o consegue. Foi o melhor marcador do Real Madrid em todas as épocas que lá passou e marcou quase um terço dos golos da equipa. O Francisco Gento ganhou doze campeonatos, que é o recorde absoluto da competição, e mesmo assim fica de fora: jogava ao lado do Di Stéfano, do Puskás, do Kopa e do Santamaría, e o protagonista daquela equipa não era ele. Doze títulos medem a equipa em que um jogador calhou de jogar tanto como o medem a ele.
ST
Zarra — Athletic Bilbao 1946-47
Três recordes da prova, cada um de pé durante cerca de sessenta anos: seis vezes melhor marcador do campeonato — o Pichichi, o troféu que hoje tem esse nome, só nasceu em 1952-53, seis anos depois desta carta, e o recorde só foi igualado pelo Messi, com oito Pichichis genuínos, em 2018-19 —, 38 golos numa só época (recorde entre 1951 e 2011) e 251 golos — a cifra oficialmente reconhecida, porque até 1952-53 os árbitros não anotavam os golos na acta, e há fontes que falam em 253, 256 e 259. O prémio do melhor marcador espanhol tem hoje o nome dele: o Trofeo Zarra. A carta, no entanto, não é da época dos 38 golos — essa foi 1950-51, ano em que o Athletic acabou em sétimo, fora do pódio que este jogo guarda. É de 1946-47, a única das suas épocas de golos altos em que o pico coincidiu com um lugar no pódio: 34 golos, e o Athletic (então Atlético de Bilbao) em segundo.